Mostrando postagens com marcador cinza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinza. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Tarde no Cinzeiro


A tarde cinza era quase um reflexo de mim mesma. Mas chovia, e eu cheguei num ponto em que não sei nem chorar - daí aprendo a gostar de vomitar, porque é uma forma de chorar, como ela me leu num conto de C. F. Abreu enquanto eu puxei (mais) um cigarro do maço e fiquei encarando as palavras no ar, com a fumaça.
Lembrei de um punhado de coisas que tinha esquecido. Da sensação absurda de não haver um resquício de serotonina no meu corpo inteiro. Do grande vazio que eu sentia. E corrigi: do grande vazio que sinto.
Deve haver algum sentido. E se do alto das minhas 81 encarnações não houver sentido nenhum em 81 vidas, em 81 desilusões consecutivas, em 81 quedas e pior, 81 recomeços?
Sabe, o mais triste é ter esperança.
Tem uma parte do jogo em que fica bem você desistir, e admitir que perdeu. Pronto, perdi. É importante ser bom perdedor. Como eu, desistindo desse post sem coerência nenhuma.

Era tarde, era cinza, era inverno.
Como São Paulo de outra época, garoava, e eu esperava o bonde na estação de metrô.
Como em dias imemoráveis, como com olhos de outros tempos, eu enterrava minha misantropia no asfalto molhado, que não sabia absorvê-la, porque é concreto, e acabava refletindo em mim as minhas dores eternas.

Quem é que não tem dor?
Ela é tudo que tenho; é quase uma obrigação que eu goste dela.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

abandono

substantivo masculino

1. ato ou efeito de deixar, de largar, de sair sem a intenção de voltar; partida, afastamento
2. falto de amparo ou assistência; dessarrimo
3. ato ou efeito de renunciar, de desistir
4. estado ou condição do que é ou se encontra abandonado; desleixo, negligência

Já há algum tempo que essa condição me persegue. Até hoje só quis abandonar. De repente, fui eu quem me surpreendi abandonada.
São Paulo, São Paulo: minha solidão não é santa como tu, cidade maldita. Atropelas meu coração na esquina da Dona Antonia com a Consolação (que nem a si mesma serve de consolo entre tantos faróis) e percebo como sou abandonada, como também me abandonei.
E agora lateja dentro de mim a necessidade absurda de partir, de abandonar tudo uma vez mais.

(Sobre a ponte Tul'skaya o pranto seco da moça;
o céu é cinza, a alma é cinza, e ela bate as cinzas do cigarro por sobre o monocromático da vida nas capitais)